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Entrevista Eneida Queiroz


Primeiramente, queria agradecer sua entrevista ao “Blog Livro Rosa Shock”.

Eu que agradeço a oportunidade de falar sobre o livro. O que o autor mais gosta é de ser lido, de agradar aos leitores, saber que fez a felicidade de alguém, que fez alguém sonhar, dividir com os outros as suas impressões sobre o mundo ou sobre personagens específicos.

1-      Da onde surgiu a vontade de descobrir sobre a Eufrásia e o Nabuco, você esteve na casa de Hera?

Tudo começou no meu trabalho... Sou historiadora do Instituto Brasileiro de Museus, e aqui conheci o Museu Casa da Hera, antiga residência onde viveu Eufrásia. Pesquisando, soube que Eufrásia Teixeira Leite foi uma mulher do século XIX que não se casou nem teve filhos, um fenômeno raro para a época. No entanto, corre a lenda de que ela teria pedido para ser enterrada com as cartas do noivo. Como é?! Não casou, mas pediu para ser enterrada com as cartas do noivo?! Percebi, de imediato, que havia uma complexidade naquela mulher que precisava ser explorada. Se a história das cartas no caixão era lenda ou não, não importava... O que importava é que eu estava diante de uma brutal história de amor! Eu quase não acreditei! Aprofundei-me na pesquisa e encontrei outros vários pontos de encantamento nos personagens.
O noivo era o famoso abolicionista Joaquim Nabuco. Como se não bastasse a luta pela abolição da escravatura (que foi uma das maiores batalhas políticas desse país), a elegância, a erudição, ter sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, amigo de Machado de Assis, amigo de Eça de Queirós, deputado, diplomata, historiador, ainda era bonito! Lindo, na verdade!
Nós temos um homem interessantíssimo que se apaixonou por uma mulher extraordinária. Tão iguais e tão diferentes ao mesmo tempo. Eles merecem todos os tipos de obra: pesquisas históricas, romances, quadrinhos, filmes, séries, minisséries, novelas! Eu me apaixonei pelos dois e quis que outros se apaixonassem por eles também. Acima de tudo, acredito que me apaixonei pela possibilidade de contar um pouco da história brasileira do século XIX por intermédio do romance dos dois.
Sim, visitei a Casa da Hera, quando já estava com a pesquisa em andamento. Visitei para produzir o texto do trabalho, mas aproveitei para sonhar ali dentro. E foi ali que eu percebi algo muito comum em museus-casa: alguns funcionários têm medo dos possíveis “fantasmas” do local. É claro que eu fiz uso disso também! São nessas visitas de campo em que nós percebemos detalhes que a pesquisa à distância não nos permite ver. Estou com muita vontade de voltar lá agora!

2-      Quais características de Eufrásia te chamaram mais atenção?

Eu diria que Eufrásia tem um conjunto de características que chamariam a atenção de qualquer pessoa:

·      Investidora inteligente que aumentou em 10 vezes a herança do pai, em uma época na qual as mulheres não recebiam a mesma educação dos homens, eram vistas como seres de menor capacidade intelectual e muito emotivas;
·      Doação de grande parte de sua herança para instituições de caridade em Vassouras. Sua herança foi avaliada em quase duas toneladas de ouro e até os mendigos do seu quarteirão em Paris foram lembrados no testamento;
·      Mulher que não se casou e não teve filhos, em uma época na qual o casamento e a procriação eram as razões de ser do sexo feminino;
·      O romance com Joaquim Nabuco, um dos personagens mais importantes da política brasileira no século XIX;
·      Rica história familiar, tocando nos baronatos, no café, na escravidão, nas ferrovias, na família imperial, na política imperial.

Além dessas características principais, nós ainda poderíamos citar outras coisas: o fato de que ela foi bonita, de que foi voluntariosa, ter morado na França por tantos anos e viajado por muitos países da Europa, ter usado roupas de estilistas famosos da época – como o pai da alta costura Charles Worth –, ter alforriado seus escravos em 1884 (provavelmente, como eu faço indicar no livro, influenciada por Nabuco), ter preservado a casa dos pais... Eufrásia como um todo me chama atenção! (risos) Nabuco também, demais.



      3-      Apesar de o livro dar várias pistas, em sua opinião porque ela não aceitou se casar com Joaquim?

Ah, essa é uma pergunta que eu também não sei responder...
Acho que um conjunto de fatores...
É preciso que se diga, também, que a própria Eufrásia estava confusa. Ela própria se descreve como um enigma. Amar ela amava! Nós percebemos por trechos de suas cartas (as quais Nabuco guardou por toda a vida, e por isso estão preservadas em Recife na Fundação Joaquim Nabuco) que ela o amava demais. Em uma das cartas ela diz “te amo de todo o meu coração”, em outra diz que “desde que viemos juntos a Europa, vivi deste sentimento por si, não tive, não quis, nunca pensei ter outro”. Ou seja, era apaixonada por ele e nunca teve outro homem. Nunca sequer pensou em ter outro homem.
No entanto, preferiu não casar...
Eu diria que uma das razões era a forte oposição familiar. Nabuco e sua família eram do Partido Liberal, enquanto os Teixeira Leite eram do Partido Conservador; seu pai tivera desentendimento político com o pai de Eufrásia quando de sua proposta de reforma do Judiciário de 1854; Nabuco era um abolicionista, enquanto os Teixeira Leite eram escravagistas; apesar de pertencer à elite política, o dinheiro dos Nabuco não se comparava à fortuna dos Teixeira Leite e talvez julgassem-no um caçador de dote.
Mas seria muito fácil explicar que Eufrásia não se casou com Nabuco simplesmente por causa da oposição familiar. É isso, somado a outros fatores. É mais provável que as razões também lhes sejam internas, por escolhas próprias, e não apenas pelas imposições externas.
Eufrásia, por exemplo, era ciumenta e não tolerava o fato de Nabuco ser mulherengo. E isto nós sabemos pela carta que Nabuco trocou com o pai, para explicar porque ela havia rompido o primeiro noivado.
Além disso, Eufrásia não queria viver no Brasil, enquanto Nabuco pretendia seguir carreira política aqui no país.
Eufrásia não queria que ele desistisse da carreira política para morar ao lado dela na Europa, porque não queria que ele desperdiçasse a vida profissional. Ou seja: ela o amava tanto, que não queria que ele se diminuísse para ficar com ela, casar com ela. Para Eufrásia, Nabuco tinha que conseguir tudo de melhor que a vida pudesse lhe dar. Tinha que ser deputado, ministro, tudo que ele quisesse ser! Mas como conciliar isso com o amor de uma mulher que não queria morar no Brasil?! Difícil... Ela não cedeu e também queria que ele não cedesse. Um enigma, realmente. Complexa. Sofreu bastante com isso.

4-      Como foi escrever a obra, o trabalho de pesquisa?

Escrever foi maravilhoso. Foi muito bom viver junto com eles o que eu acho que eles devem ter vivido (o que eles podem ter vivido). Fiz questão de ler os diários de Nabuco e toda vez que Eufrásia era mencionada, eu transcrevia o que ele dissera e fazia questão de recriar a cena. Como o primeiro Natal em Paris, o reencontro com ela em Roma alguns meses após o término do noivado, o passeio de gôndola em Veneza, a briga que tiveram ali dentro – uma bruille, como ele descreveu – a viagem de trem, os jantares na casa dela, o reencontro na casa da Princesa Isabel. Isso tudo aconteceu, ele próprio documentou. O que eu fiz foi sonhar e imaginar o que eles podem ter conversado, quais assuntos, se beijaram ou não? Se amaram ou não? Quais as razões das brigas, quais as razões dos sorrisos.
Também fiz uso do livro dele, Minha Formação, e recriei algumas cenas de infância que Nabuco narra no texto. Pesquisei a biografia dele escrita pela Angela Alonso, da USP. Fiz uso de algumas biografias sobre o Barão do Rio Branco também, que era o amigo Juca. Pesquisei em uma publicação com as cartas trocadas entre Nabuco e Machado de Assis... Pesquisar foi muito bom, o difícil era montar o quebra cabeças. Tive que me ater aos eventos históricos do Brasil, aos acontecimentos da vida de Nabuco e as cartas de Eufrásia, para saber o que escrever nas cartas dele para ela! Afinal, essas não existem mais... Dizem que é por Eufrásia ter pedido para ser enterrada com elas.
Nas cartas dele, eu fiz questão de pontuar os acontecimentos políticos que o Brasil vivia, e o quanto isso impactava a sua vida e, por conseguinte, o seu romance com Eufrásia.

5-      Quando você começou a escrever?

Já não consigo me recordar... Acredito que foi no início de 2012 ou final de 2011.


6-      Quais são os seus livros de cabeceira?

Essa também é difícil. Muitos dos meus livros de cabeceira são esses de pesquisa que eu uso, livros de história do Brasil, biografias, textos e artigos de pesquisa histórica. Ultimamente, por causa do livro, eu reli Senhora de José de Alencar. É maravilhoso. Agora estou lendo o livro Inferno, do Dan Brown, porque gosto do jeito ágil e fácil que ele escreve.

7-      Já tem mais obras em mente?

Tenho! (risos) Eu queria voltar com Desirée para outro museu, o Museu de Arqueologia de Itaipu, em Niterói. Não só porque Niterói é minha cidade natal, mas porque os personagens desse museu também são interessantes!

8-      Quem é Eneida, você tem alguma frase ou pensamento de vida?

Eu? ... Eu acho que sou tão confusa quanto Eufrásia. Complexifico tudo. Será que eu faço isso ou aquilo?! Mas e se...? Ou se não?
Se eu fosse pensar em alguma coisa agora, talvez viesse a me lembrar de um dos personagens do livro, a Evelina que casou com o Nabuco. Para Evelina a vida era mais leve e fácil. A vida era simples. Ela escolheu e pronto. Calma, serena, sem dramas.
Acho que a vida é escolher e saber que cada escolha tem as suas consequências. Aceitar as consequências, de forma serena. Ficar no meio do caminho não é bom.

9-      Se você pudesse dar outro final ao romance qual você daria?

Eufrásia e Nabuco juntos! Os dois mereciam isso. Alguém precisaria ceder naquela história, mas que isso não significasse a morte profissional de nenhum dos dois. Talvez uma reinvenção. Um recomeço. Que eles se casassem e que isso não significasse a perda de controle dela sobre o patrimônio financeiro, que isso não significasse o fim ou a diminuição da carreira de escritor ou diplomata dele. Ou mesmo a carreira política, a mais difícil de conciliar. Eles poderiam ir e vir do Brasil para Europa para conciliarem isso.
Que eles tivessem filhos, como Nabuco sempre quis! Que eles, como duas mentes brilhantes que eram, se alimentassem um do outro e formassem um casal brilhante.
Que eles se casassem e que a família fosse proibida de dizer um “ai” sobre aquela união.
Que Francisca tivesse se casado e sido feliz.
Que o pai de Nabuco tivesse se tornado Presidente do Conselho de Ministros e não tivesse morrido tão desgostoso.
Que a abolição da escravatura tivesse acontecido antes, muito antes!
Que as reformas sociais para reparar o mal da abolição tivessem sido feitas.

Eu sonho demais...




    

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